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Matemática na Educação Infantil

Por: Ieda Abbud*

As crianças estão imersas desde muito pequenas em uma cultura na qual o conhecimento matemático está presente cotidianamente. Elas escutam seus familiares dizendo palavras que designam números para atribuir quantidades aos objetos, ao responderem sobre a idade dos filhos, sobre seu peso e altura no pediatra, ao compararem o preço de produtos diversos, ao se referirem a datas e assim por diante.

Matemática e os contextos de aprendizagem

Cabe à escola, e ao professor, aproveitar esse conhecimento e as situações existentes no cotidiano para planejar um ambiente e novas situações, de modo que as crianças se deparem com o conhecimento matemático, possam explorá-lo, refletir sobre seus usos e se lançarem na sua utilização para resolver problemas, em contextos próximos dos sociais.

Cada criança irá construir seu conhecimento matemático por meio de sucessivas reorganizações ao longo de todo o seu percurso escolar, e a complexidade e provisoriedade fazem parte desse processo.


Os conteúdos de matemática e o papel do professor

Na Educação Infantil, alguns contextos são privilegiados para esses primeiros contatos com a matemática, relacionados às noções de espaço e forma, de grandezas e medidas, de número e sistema de numeração. As situações de aprendizagem tornam-se especialmente potentes para que cada criança avance em seu percurso de investigação do conhecimento matemático com a mediação intencional do professor, que irá propor desafios e perguntas apropriadas para cada criança em cada contexto, considerando aquilo que elas já sabem.

Dessa forma, as crianças podem não apenas resolver os problemas colocados pelas diferentes situações de modo prático, pela ação, mas tomar consciência dos problemas e refletir sobre suas ações, levantando hipóteses, verbalizando-as e compartilhando soluções. 

Exemplos de perguntas que fazem as crianças avançarem:

. Quanto você precisa tirar no dado para que seu pino fique uma casa à frente de seu amigo?

. Como você pode fazer para que essa construção fique em pé?

. O que você acha que fez com que a sua torre ficasse tão alta?

Número e Sistema de Numeração

O trabalho com o número e o Sistema de Numeração na Educação Infantil do Oswald se dá cotidianamente, em situações que exigem contagem de objetos e pessoas. No momento de checar quantas crianças do grupo vieram à escola e quantas não vieram, quando uma criança ajuda a distribuir papel, pratos ou outro material para as crianças do grupo.

Também, nessas situações o professor pode intervir com demandas e perguntas que desafiem as crianças a pensarem e fazerem estimativas sobre quantidades:

. Quantas canetas você precisa pegar para dar uma para cada criança?

. Será que essa quantidade de pratos dá para distribuir para todos?

Com as cantigas, parlendas e outras situações que envolvem a recitação numérica, as crianças vão memorizando a sequência numérica convencional. Com a perspectiva de ampliar a série oral e a contagem de quantidades maiores de objetos, trabalhamos, no Grupo 4, com as coleções, que garantem uma quantidade e variedade de objetos com diferentes atributos, desafiando as crianças a encontrarem critérios de classificação e organização das peças para descobrirem e compararem a quantidade total e de cada subconjunto de objetos.

De posse da recitação oral da sequência numérica de determinada amplitude, as crianças são capazes de utilizá-la em outras situações e de começar a estabelecer relação entre ela e a quantidade correspondente de, por exemplo, casas a andar no jogo de percurso.

O jogo como recurso de aprendizagem

O jogo, aliás, é uma prática que, com a mediação do professor, possibilita que as crianças façam uso da contagem na utilização do dado, na organização do material e na contagem de pontos, experimentando estratégias para garantir a correspondência termo a termo, de modo lúdico e coletivo. A troca entre os pares com competências diferentes, mas próximas, é um bom recurso para promover avanços nas aprendizagens de cada criança.

Os mais experientes funcionam como modelos suficientemente próximos dos demais, ao mesmo tempo em que precisam organizar os seus saberes para ensinar algo aos colegas.

Grandezas e medidas

A sequência numérica também será mobilizada em situações que envolvem grandezas e medidas, como nas situações de marcação de tempo ou medição de  algo com uma fita métrica. As atividades de culinária são contextos interessantes e prazerosos para lidar com quantidades e medidas de massa e volume, e mesmo de tempo (quanto tempo é preciso deixar o bolo no forno? Como marcar esse tempo?). 

Os projetos de investigação a partir de determinada questão também geram, muitas vezes, a necessidade de medir e comparar grandezas (o volume, a massa, a superfície, o comprimento, a capacidade, a velocidade, o tempo): qual o maior dinossauro? (Projeto “Dinossauros”); quanto mede um prédio? (Projeto “Casas”); em qual pote cabe mais areia? (Projeto “Areia”) são exemplos dessas oportunidades para que as crianças lidem com essas noções.

A construção da rotina diária junto às crianças desde o Grupo 1 (crianças a partir de um ano) favorece a construção da noção de tempo, ampliada nos anos seguintes no trabalho com o calendário, que, em seu uso social, é utilizado para checar a data vigente (o número correspondente à data), com apoio do professor, bem como para marcar eventos e datas significativas para o grupo (aniversários do grupo, passeios, etc.).

A série numérica é também utilizada pelas crianças nessas situações para localizarem essas datas no calendário, seguindo as casas correspondentes aos dias.

Espaço e forma

Nas diferentes brincadeiras pelo espaço, ao correrem, transporem obstáculos, deslocarem objetos, procurarem pessoas e objetos escondidos, explorarem diferentes caminhos pelo parque e outros espaços da escola, fazerem construções e composições com blocos e outros objetos de diferentes formatos e tamanhos, as crianças exploram noções relacionadas ao espaço e à forma.

Nessas situações, também são incentivadas a verbalizar sua posição – em cima, em baixo, ao lado, à frente, atrás –, bem como a comunicar suas experiências de deslocamentos para o professor ou outras crianças, explicando o trajeto oralmente, por gestos ou por desenho.

O pensamento geométrico diz respeito às relações e representações espaciais que a criança desenvolve em referência a objetos e deslocamentos que realiza no ambiente. Por isso, além dessas oportunidades de comunicação, também procuramos criar situações para que as crianças possam observar, descrever e representar uma construção ou composição tridimensional bidimensionalmente, por meio do desenho, assim como elaborar uma produção tridimensional a partir de um desenho ou imagem bidimensional.


Mobilização do conhecimento matemático no faz de conta

As brincadeiras de faz de conta são situações privilegiadas para que as crianças explorem, mobilizem seus saberes e experimentem levantar hipóteses sobre a contagem, a escrita dos números, as grandezas e as relações espaciais. Por exemplo, quando identificam e produzem notas do sistema monetário ao brincarem de supermercado e restaurante ou quando negociam de modo autônomo a distribuição de brinquedos entre as crianças que compartilham a mesma brincadeira, ou, ainda, quando brincam de construção de casas com blocos e caixas no parque.

Nesses momentos, a observação do professor, traz elementos para conhecer cada criança, o que cada uma delas demonstra saber, para, a partir disso, planejar e ajustar suas intervenções nas demais situações e oportunidades, visando instigá-las no avanço de seu conhecimento de mundo, no qual o conhecimento matemático é parte fundamental.

2018-11-08T11:05:01+00:00

About the Author:

Ieda Abbud
Ieda Abbud é Coordenadora Pedagógica da Educação Infantil (G2 ao G4) no Oswald. Graduada em Psicologia e Mestre em Educação pela PUC-SP. Foi professora de Educação Infantil e Diretora de Centro de Educação Infantil (CEI) na PMSP. Participou do programa de ADI-Magistério de SME-SP e integrou a equipe de Assessoria do programa “Rede em Rede”, de formação dos coordenadores pedagógicos e diretores de unidade de Educação Infantil na SME-SP. Integra o quadro de professores do curso de pós-graduação do Instituto Singularidades, Educação Infantil: investigações e fazeres com crianças de 0 a 3 anos. Autora do livro John Dewey e a Educação Infantil: entre jardineiras e cientistas e coautora do livro, organizado por Zilma Ramos de Oliveira, O trabalho do professor na Educação Infantil.

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